Revista Visão - Treinadoras de Campeões
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Treinadoras de campeões

Cobram 400 euros por hora para ajudarem os líderes a serem ainda melhores. Têm a teoria de que as pessoas felizes são emocionalmente mais robustas

Auto-intitulam-se «treinadoras de campeões», fazem perguntas atrás de perguntas, desafiam aqueles que seguram as rédeas do poder nas grandes empresas. Obrigam-nos a dar uma volta de 360 graus, em torno de si próprios. Um regresso ao início. Os resultados mostram os pontos fortes e fracos que os líderes podem e devem aperfeiçoar para serem... ainda melhores.

Psicólogas de formação, Isabel Freire de Andrade e Sofia Calheiros tratam do desenvolvimento pessoal dos líderes, maximizando-lhes o potencial, ajudando-os a encontrar soluções, com o auxílio das técnicas da psicologia e da psicoterapia. Fundaram a Conceito O2, há oito anos, muito antes de o coaching entrar na moda em Portugal. São, no País, as mais antigas coaches (treinadoras) certificadas pela International Coach Federation.

O coaching começa com o método dos 360 graus, uma técnica de diagnóstico que avalia os comportamentos dos líderes. São estes quem escolhe os colegas, amigos e até familiares que darão opinião sobre os seus comportamentos. Os resultados são inseridos numa base de dados e, de seguida, comparados com uma amostra que permite caracterizá-los e defini-los de acordo com um padrão construído a nível mundial. Os resultados nem sempre são os mais convencionais. «Há poucas pessoas excepcionais. A maioria é muito normal», salienta Sofia Calheiros. Curiosamente, as excepcionais raramente são as mais mediáticas, as que dirigem grandes empresas conhecidas de todos. «São pessoas discretas, que ainda têm muito para dar. E nem estão preocupadas em ter visibilidade. Por vezes, têm de ser empurradas para se exporem mais», observa Isabel Freire de Andrade.

Com o método dos 360 graus, «vêem-se as fragilidades». Alguns choram, ao tomarem conhecimento dos resultados - transmitidos pessoalmente pela coach, e nunca a uma sexta-feira, para evitar que passem o fim-de-semana a matutar. «Comovem-se, quando descobrem o padrão. Outros riem-se quando percebem como fizeram as coisas», conta Sofia Calheiros. É, sem dúvida, «um momento muito sensível. Temos de ajudar as pessoas a lerem os resultados», reforça Isabel Freire de Andrade.

Ao contrário da psicologia, o coaching é centrado no presente com enfoque no futuro. Nas empresas, o que importa são os objectivos, as metas. Por isso, há que apontar os caminhos e as soluções possíveis, depois de concluído o diagnóstico. Cada um chega às suas próprias soluções, com acompanhamento personalizado. «O trabalho é deles, não é nosso. Apenas recomendamos que aperfeiçoem duas competências por ano», explica Isabel Freire de Andrade.

O autocontrolo e a empatia são as que os gestores lusos mais desejam desenvolver. Por autocontrolo, entende-se a gestão das emoções, de forma construtiva. Por empatia, a compreensão do estado de espírito dos outros, dos seus anseios e preocupações.

«Os líderes apresentam sete vezes mais autocontrolo e três vezes mais empatia do que a média, mas querem atingir a excelência. Têm a mania da excelência», diz Sofia Calheiros. Por isso, chegaram, ou chegarão, a posições de destaque. Preocupam-se em motivar as equipas que lideram, perceber o que querem as outras pessoas, e em controlar as irritações - sobretudo em momentos de tensão, como os despedimentos. «O que faz a diferença não são as competências técnicas, mas sim as competências emocionais, ou seja, a inteligência emocional», explica Isabel Freire de Andrade. Há estudos que dizem que é assim. Num deles [Boyatzis, 1982], com mais de 2 mil gestores de 12 grandes organizações, concluiu-se que 81% das competências que distinguiam os grandes gestores estavam relacionadas com a inteligência emocional.

'COACHING' É PARA OS RICOS

O coaching é talvez a profissão mais bem paga da actualidade. «Formação é para os pobres, coaching é para os ricos», atira Sofia Calheiros. Na Conceito O2, cobram-se 400 euros à hora. Uma sessão de hora e meia custa 600 euros. «No final, saímos esgotadas. É muito desgastante. O nível de concentração é muito elevado. Estamos totalmente atentas, em perfeita sintonia com o outro. Temos de sair de nós para perceber o outro. O botão está a cem», conta Isabel Freire de Andrade.

Em regra, os objectivos são alcançados em seis a sete sessões individuais de coaching, com a duração de 90 minutos cada. «Não damos ordens, eles é que decidem. Nem podemos dar, a este tipo de pessoas...» Mas, em geral, «portambem. Como o coaching é muito caro, querem retirar o máximo de proveito das sessões», explica Isabel Freire de Andrade. «Quando apontamos os caminhos, eles identificam o padrão e percebem», remata a psicóloga.

Sofia e Isabel garantem que não sentem a crise. No ano passado, encerraram as contas com um aumento de 20% do volume de negócios. Clientes não lhes faltam, cá e em Angola, país que precisa de recuperar do atraso de décadas. E há também o mercado fiel das multinacionais, onde «o nível de exigência é muito maior».

SOLIDÃO NO TOPO

Temos bons ou maus chefes? Como são os líderes à portuguesa? Com a globalização, «não há um estereotipo português», dizem as psicólogas.

«Os gestores de topo são solitários. As posições cimeiras são de grande isolamento», frisa Sofia Calheiros. Em Portugal, ainda são os homens que lideram, na maioria das empresas, mas as mulheres que chegam a lugares de destaque «são iguais aos homens. Se não tivessem determinadas competências, não tinham chegado lá», conclui Sofia Calheiros. Os líderes são, por natureza, «muito orientados para resultados e, mesmo no coaching, exigem resultados rápidos». Pensam, estudam, trocam impressões. Mas também revelam «fragilidades, inseguranças, como qualquer pessoa comum». É, contudo, nas multinacionais que há uma cultura de aceitação do erro. «Evoluem, analisando o erro. Nós escondemo-lo. O erro não é partilhado. Quem o comete fica estigmatizado.

Os líderes também têm medo de errar», admite a psicóloga. E alguns adoptam comportamentos desviantes, tornando-se «arrogantes e brutos», por falta de autoconfiança. Serão as pessoas felizes melhores profissionais? Sofia Calheiros está convencida de que não. «As pessoas mais felizes não são as que mais produzem, nem as mais focadas no trabalho. Como têm vários interesses, não precisam tanto de se realizar através do trabalho. E saem mais cedo...» Mas são as que apresentam «maior robustez emocional, maior criatividade, e que desenvolvem relações interpessoais mais construtivas».

A experiência das duas psicólogas diz-lhes que as pessoas que tendem a trabalhar mais negligenciam as outras áreas da sua vida. Mas acabam por se sentir infelizes, quando percebem que o trabalho não satisfaz todas as suas necessidades. Também aqui o coaching pode ser útil, fazendo-as pensar no que pode correr mal. «Ajudamos as pessoas a serem felizes», resume Isabel Freire de Andrade. Por 400 euros à hora.

Por Clara Teixeira, Revista Visão nº 890 em 2010-03-25

 

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